Do agito da juventude à escolha pela Casa do Sol
A partir de 1965, Hilda Hilst fez da Casa do Sol, em Campinas, seu território de criação e convivência. Ali, junto à sua família eletiva — amigos, artistas e intelectuais — escreveu parte decisiva de sua obra e estruturou uma rotina de pensamento em diálogo constante com a literatura, a filosofia e a ciência.
Entre aqueles que participaram desse percurso esteve o escritor Jose Luis Mora Fuentes, amigo e interlocutor fundamental, com quem manteve intenso intercâmbio criativo e intelectual. Ao longo dos anos, Mora Fuentes também foi responsável pela concepção dos jardins da Casa do Sol, hoje tombados por seu valor histórico e cultural. Após a morte de Hilda, fundou o Instituto Hilda Hilst, assumindo a gestão de seu legado e a preservação do imóvel.
Atualmente, o Instituto mantém e compartilha esse patrimônio por meio da Sala de Memória, onde estão reunidos manuscritos, biblioteca particular, correspondências, fotografias, objetos e documentos que evidenciam a dimensão afetiva, intelectual e criativa da autora.
Obra, Memória e Legado
A obra de Hilda Hilst publicada em livro no Brasil abrange poesia, prosa, teatro e crônicas. A partir de 2001, iniciou-se um projeto de organização e republicação em grande escala: a coleção Obras reunidas, da Editora Globo, publicada entre 2001 e 2008, com organização e plano editorial do teórico literário e crítico Alcir Pécora, construído em diálogo com a Poeta ainda em vida. Em 2017, a Companhia das Letras passou a publicar a obra completa de Hilda, começando por Da poesia, volume que reúne a produção poética conhecida em edição de referência. Em 2018, foi lançado Da prosa, reunindo sua ficção em edição integral. Assim, o núcleo central da produção literária de Hilda Hilst encontra-se hoje amplamente organizado, publicado e acessível em livro no país, acompanhado por um movimento contínuo de reedições e reaproximações críticas.
Esse processo de organização editorial não apenas reúne textos antes dispersos, como também reposiciona Hilda no debate literário, criando novas condições de leitura, pesquisa e recepção pública. É nessa aurora, entre a consistência do reconhecimento crítico e a expansão de alcance proporcionada por projetos editoriais, traduções, encenações teatrais e iniciativas institucionais, que se torna possível observar, com mais nitidez, a originalidade de cada território de sua escrita. A seguir, percorremos poesia, teatro, prosa e crônicas não como terrenos isolados, mas como formas comunicantes de uma mesma energia literária: uma linguagem que experimenta limites, desloca sentidos e reinventa, a cada gênero, seu modo próprio de dizer o mundo.
Poesia
A poesia de Hilda Hilst é uma casa com muitas portas. Algumas rangem, outras riem, outras se abrem de súbito para um quarto cheio de perfumes da noite. Há nela um pacto entre o corpo e a linguagem: o verso toca a carne, e a carne devolve pensamento. O sagrado aparece sem cerimônia, o amor vem com espinhos, a morte ronda como pergunta antiga, e o humor desarma qualquer solenidade. Em livros como Júbilo, memória, noviciado da paixão, a palavra se arrisca em ciclos e chamamentos: “Dez chamamentos ao amigo” é uma espécie de corda estendida no escuro, e a “Ode descontínua e remota para flauta e oboé — de Ariana para Dionísio” transforma desejo em música de fôlego longo. Já em Do desejo e Poemas malditos, gozosos e devotos, a Poeta insiste em nomear o inominável como se a linguagem pudesse, ao mesmo tempo, ferir e salvar. Seus versos não se acomodam: procuram o limite, testam o nome das coisas, arranham o silêncio até que ele responda. Entre erotismo e metafísica, ternura e ferocidade, o poema hilstiano faz do abismo um modo de escuta.
Lançamentos originais:
1950- Presságio — São Paulo: Revista dos Tribunais.
1951- Balada de Alzira — São Paulo: Edições Alarico.
1955- Balada do festival — Rio de Janeiro: Jornal de Letras.
1959- Roteiro do Silêncio — São Paulo: Anhambi.
1959- Trovas de muito amor para um amado senhor — São Paulo: Anhambi. 1961 — nova edição: São Paulo: Massao Ohno.
1961- Ode Fragmentária — São Paulo: Anhambi.
1962- Sete cantos do poeta para o anjo — São Paulo: Massao Ohno.
1967- Poesia (1959/1967) — São Paulo: Editora Sal.
1974- Júbilo, memória, noviciado da paixão — São Paulo: Massao Ohno.
1980- Poesia (1959/1979) — São Paulo: Quíron / INL.
1980- Da Morte. Odes mínimas — São Paulo: Massao Ohno / Roswitha Kempf.
1980- Cantares de perda e predileção — São Paulo: Massao Ohno / Lídia Pires e Albuquerque Editores.
1984- Poemas malditos, gozosos e devotos — São Paulo: Massao Ohno / Ismael Guarnelli Editores.
1986- Sobre a tua grande face — São Paulo: Massao Ohno.
1989- Amavisse — São Paulo: Massao Ohno.
1990- Alcoólicas — São Paulo: Maison de vins.
1992- Bufólicas — São Paulo: Massao Ohno.
1992- Do Desejo — Campinas: Pontes Editores.
1995- Cantares do Sem Nome e de Partidas — São Paulo: Massao Ohno.
1999- Do Amor — São Paulo: Massao Ohno.
2018- Eu sou a Monstra: Hilda Hilst para crionças — São Paulo: Editora Quelônio.
Teatro
O teatro de Hilda Hilst é uma máquina de choque: personagens falam como quem encosta a testa no limite do mundo, e o palco vira um recinto de perguntas éticas, políticas e místicas ditas em voz alta. Sua dramaturgia trabalha com alegorias e confinamentos, como se a cena fosse um laboratório onde a linguagem é testada até estalar, onde o riso pode ser lâmina, onde a fé pode ser armadilha, e onde a autoridade aparece sempre com a máscara torta do poder. Em textos como O novo sistema, O rato no muro e O verdugo, a dramaturgia se constrói na tensão entre a inocência e a violência, a ordem e o desvio; enquanto As aves da noite e Auto da barca de Camiri fazem a história entrar em cena sem transformar o horror em ornamento. Reunido em torno da experiência de recolhimento e criação na Casa do Sol, o teatro hilstiano revela a faceta da Poeta que entende a cena como rito e confronto onde o silêncio, quando aparece, não é descanso, mas, sim, vertigem.
Lançamentos originais:
1967- A Possessa; O rato no muro
1968- O visitante; Auto da Barca de Camiri; O novo sistema; Aves da Noite
1969- O verdugo; A morte do patriarca
Prosa
A prosa de Hilda Hilst é corpo em combustão. Narrativa que pensa, pensamento que sangra, sangramento risonho; às vezes com uma ternura áspera, às vezes com uma ferocidade quase mítica. Não há conforto de gênero pois as frases se dobram, performam, debatem com o sagrado, o profano e o obsceno na mesma respiração, como se a linguagem fosse uma casa assombrada pela própria pergunta do existir. Em obras como Fluxo-Floema, estreia ficcional marcada por experimentalismo e fluxo de consciência, a escrita já se apresenta como o gabinete da alma. Mais adiante, A obscena senhora D embaralha prosa, dramaturgia e poesia para encenar o luto e a velhice como a mais febril das cóleras; um monólogo interno que não se fecha, porque a perda não se tranca. Na prosa da Poeta, o enredo muitas vezes é só um pretexto pois o que importa é o atrito da palavra contra palavra, corpo contra ideia, fé contra ironia. E quando parece que tudo vai desabar as palavras de Hilda encontram um jeito de manter-se em pé no breu apenas para ouvi-lo falar.
Lançamentos originais:
1970- Fluxo-Floema — São Paulo: Perspectiva.
1973- Qadós — São Paulo: Edart.
1977- Ficções — São Paulo: Quíron.
1980- Tu não te moves de ti — São Paulo: Cultura.
1982- A obscena senhora D — São Paulo: Massao Ohno.
1986- Com meus olhos de cão e outras novelas — São Paulo: Brasiliense.
1990- O Caderno Rosa de Lori Lamby — São Paulo: Massao Ohno.
1990- Contos d’Escárnio / Textos Grotescos — São Paulo: Siciliano.
1991- Cartas de um sedutor — São Paulo: Paulicéia.
1993- Rútilo Nada — Campinas: Pontes Editores.
1997- Estar Sendo / Ter Sido — São Paulo: Nankin.
1998- Cascos e Carícias (crônicas reunidas, 1992–1995) — São Paulo: Nankin.
Crônicas
As crônicas de Hilda Hilst têm a agilidade de quem pensa em voz alta e a coragem de não polir demais o pensamento. Entre o cotidiano e o imaginário, a Poeta observa o mundo com humor cortante, ternura e uma lucidez que sabe ser insolente. O texto avança como conversa e como provocação; ora íntimo, ora público, mas sempre atento ao que se esconde atrás das palavras prontas. Nelas, a vida comum não é cenário, mas, sim, matéria viva. E a linguagem, mesmo breve, não perde o risco porque, em Hilda, toda frase pode virar dúvida, beleza e dádiva ao mesmo tempo.
1992 a 1995 — Escrita/publicação das crônicas no jornal Correio Popular.
1998 — Lançamento de Cascos e Carícias: crônicas reunidas (1992–1995). São Paulo: Nankin Editorial.
Traduções publicadas
As traduções abrangem países como Reino Unido, Portugal, Itália, França, Suécia, Japão, Coreia do Sul, Turquia, Dinamarca, Argentina, Espanha, Grécia, México, Rússia e Colômbia. Esse trabalho resulta da atuação conjunta do Instituto Hilda Hilst, da MTS Agência Literária e da Companhia das Letras, com negociações internacionais em curso.
Reconhecimento crítico
Os prêmios recebidos por Hilda Hilst ajudam a desenhar para os descrentes aquilo que sua obra sempre fez por si: afirmar uma escrita radical, rigorosa e indomesticável capaz de atravessar poesia, prosa e teatro com a mesma força de invenção. Entre reconhecimentos literários e distinções culturais, cada láurea funciona menos como “chegada” e mais como sinal de permanência: a confirmação pública de uma Poeta que não abriu mão de si, mas, sim, cerrou os punhos contra a submissão da palavra.
Prêmios recebidos
1962 — PEN Clube de São Paulo.
1969 — Prêmio Anchieta (pela peça O Verdugo).
1977 — Associação Paulista de Críticos de Arte (Melhor Livro do Ano, Ficções).
1981 — Grande Prêmio da Crítica (conjunto da obra).
1984 — Prêmio Jabuti (poesia), por Cantares de Perda e Predileção.
1985 — Prêmio Cassiano Ricardo (pela mesma obra).
1997 — Ordem do Mérito Cultural.
2002 — Prêmio Moinho Santista (Poesia).