A Casa do Sol: O Universo Pessoal de Hilda Hilst

Entre 1966 e 2004, a Casa do Sol foi o palco de criação de obras revolucionárias e um farol para artistas e pensadores.

“A minha casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências
E transmuta em palavras, paixão e veemência”

Imagem de fundo

100+

espécies de plantas no jardim.

50+

suportes de registros audiovisuais.

600+

livros da biblioteca circulante.

600+

itens do acervo em exposição permanente.

3000+

livros da biblioteca pessoal de Hilda.

8000+

digitalizações: fotos, cartas, marginálias, manuscritos, documentos.

Nascer do Sol

Localizada em Campinas-SP, a Casa do Sol começou a ser construída em 1963. Em 1965, Hilda Hilst passou a habitá-la e ali viveu e trabalhou até 2004, fazendo do espaço não apenas uma residência, mas um recinto da sua escrita. Tombada como patrimônio cultural, a Casa do Sol é hoje sede do Instituto Hilda Hilst e permanece viva, preservada e em funcionamento. Seus ambientes originais de trabalho, a biblioteca, os jardins, os objetos de uso diário, os manuscritos e tantos outros documentos formam um interior habitado por camadas de imaginários, como se cada cômodo guardasse um sonho, cada canto mantivesse um resto de luz, cada estante ainda carregasse o peso leve dos escritores que ali dormem.

Mais do que um lugar de preservação, a Casa do Sol articula memória e uso contemporâneo pois abre-se à visitação e a atividades culturais diversas sem perder o seu batimento próprio. É uma casa que continua florescendo no encontro do que foi vivido e o que ainda pode ser polinizado.

A Casa como Obra

A Casa do Sol pode ser compreendida como uma obra em processo. Não um objeto acabado, mas um corpo, um espaço, uma página onde o tempo escreve através das mãos que abrem suas portas, pelos passos que atravessam os corredores, pelas conversas que se demoram, pelas leituras que deixam poeira de pensamento no ar. Ali, o uso cotidiano não gasta, sedimenta. Cada retorno acrescenta uma camada, cada presença deixa um traço.

Os ambientes da Casa  (salas, cozinha, biblioteca, pátio interno e jardins) guardam essa lenta transformação. Há marcas materiais e memórias como quem guarda calor: na madeira, nas paredes, nas estantes, nos cantos onde a luz costuma pousar. A Casa participa; respira junto com quem entra, escuta com quem permanece, e devolve à escrita e ao convívio a sua própria arquitetura de lembranças.

Por isso, estar na Casa do Sol é reconhecer que alguns lugares não apenas abrigam a vida: eles a moldam. E que certos espaços, feitos de pequenos gestos e grandes afetos, continuam trabalhando mesmo quando tudo parece quieto.

Convivência, criação e a Casa aberta

Desde a chegada de Hilda Hilst à Casa do Sol, a convivência não foi um detalhe mas os tijolos metafísicos de uma arquitetura de afetos em permanente circulação. A Casa se fez por presenças de amigos, visitantes, artistas, pesquisadores. Gente que chegava e, por um tempo, permanecia, como um girassol que acompanha o grande astro. Partilhavam o café, o pão, o vinho, o trabalho e o intervalo, a conversa que acende e a reflexão que encanta a poesia da vida.

Essa abertura criou um fluxo contínuo de afetos: a palavra circulava, a escuta retornava, o pensamento se deslocava de um corpo para outro, e a Casa devolvia em forma de laço aquilo que recebia em forma de chegada. Assim, o encontro não era apenas hospitalidade, era método, era pulsação, um circuito de troca em que o cotidiano virava matéria de criação e a criação, por sua vez, re-memorava o cotidiano a sentir o calor da vida.

O restauro recente

Entre 2024 e 2025, a Casa do Sol atravessou o maior restauro de sua história; não como quem apaga o passado, mas como quem reafirma um compromisso: cuidar de um lugar sem retirá-lo de sua própria verdade. O projeto e a execução foram assumidos pela arquiteta Mariana Falqueiro, da Tapera Arquitetura, em consonância com as diretrizes de preservação do patrimônio tombado. O gesto central foi reconhecer que o espaço não é coisa imóvel. É experiência acumulada, é marca de uso, é tempo adubado e, por isso, preservar sua integridade arquitetônica e simbólica significou respeitar as características históricas.

O restauro devolveu à Casa condições ampliadas de conservação, segurança e acesso abrindo caminhos para que ela voltasse a ser atravessada, habitada, escutada. Com a reabertura ao público, a Casa retoma seu destino de espaço vivo, um lugar onde memória não vira vitrine e onde a programação cultural, educativa e de pesquisa pode crescer como uma Figueira engalha-se em direção ao firmamento.

Os canis 

Os antigos canis da Casa do Sol, hoje alicerçados e preservados como estruturas remanescentes da amizade entre espécies companheiras, permanecem no conjunto arquitetônico e simbólico do espaço tombado. Não são ruínas; são sopros de latidos, mãos em afagos e lambeijos da continuidade de um local que abriga amores vira-latas.

Adaptados para receber atividades culturais diversas, esses ambientes ganharam infraestrutura para eventos, encontros e programações públicas. O que antes acolhia apenas companheiros de outras espécies, hoje acolhe vozes, livros, risos, debates. É ali que acontece, entre outras iniciativas, a Feira Literária Hilstianas, reafirmando a Casa do Sol como território de ocupação cultural e convivência, um território onde passado e presente tecem alianças, e onde a memória segue trabalhando em comunidade.

O Jardim

O jardim da Casa do Sol não é como uma moldura de pintura, é pulmão da Casa. Entre caminhos, sombras e aberturas de luz, ele sustenta uma calma ativa, aquela que parece quieta, mas trabalha por dentro, como as abelhas que preparam o mel. É um jardim de presença, um lugar de pausa, de conversa, de amores; lugar onde os instantes se deixam ver no crescimento dos caules, na queda das folhas, no retorno das estações.

No jardim, a Casa se expira para fora de si mesma para logo depois inspirar outros desejos. O verde conversa com a paredes, os sons atravessam os cômodos, e o ar carrega a umidade do orvalho. Há plantas que acolhem, há pássaros que cantam a cada passo que damos, há saguis que carregam seu legado em fôrma de nova vida nas costas.

E no centro desse convívio entre o devaneio da terra e o voo do sonho, a Figueira sustenta uma gravidade afetiva. Sua sombra é alento, abrigo. Seu tronco, marcado pelas eras, parece guardar histórias sem precisar contá-las como se o jardim inteiro se organizasse em torno dela, em torno dessa força ancestral que finca a Casa no chão e, ao mesmo tempo, a empurra para o alto.

Espaço vivo e espaço de memória: um museu-casa

A Casa do Sol se organiza como um museu-casa: um território em que o espaço vivo e os espaços de memórias coexistem, sem que um tire o espaço do outro. Há ambientes, objetos e documentos que se abrigam no ambiente digital e há outros que acolhem presencialmente as residências artísticas, as visitas mediadas, as atividades educativas e os eventos culturais. Na Casa, a memória não é vitrificada, ela convive.

Essa condição híbrida, própria de um bem tombado em funcionamento, pede soluções delicadas, quase artesanais. A Casa não se encaixa no modelo de um museu tradicional, tampouco se fecha como residência privada. Ela se sustenta numa fronteira ativa, em permanente negociação entre preservação, criação e uso; fiel às marcas do tempo e atenta ao presente que chega, ao passo de quem entra, às perguntas de agora, para que o que foi vivido continue, ainda, produzindo mundo.

 

Entre passos e palavras

Visitar a Casa do Sol é atravessar os ambientes onde Hilda Hilst viveu e escreveu por quase quatro décadas. Hoje, há diferentes formatos de visita (individuais, para pequenos grupos ou grupos maiores) que acolhem públicos diversos e modos distintos de experiência. Entre interiores e jardins, o percurso aproxima o visitante da memória, da literatura e da atmosfera que ainda sustenta a criação.
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Década de 1920

Bedecilda Vaz Cardoso e Apolônio de Almeida Prado Hilst, pais de Hilda Hilst. Teriam se conhecido no Rio de Janeiro nos anos 20 e mantido relações até 1932, quando se divorciaram.

1930

Nasce em Jaú (SP), filha de família abastada.

1932

Hilda Hilst muda-se para Santos (SP) com a mãe após o divórcio dos pais.

1937-1944

Hilda Hilst vai para São Paulo e estuda no colégio interno Santa Marcelina durante o primário e o ginásio.

1944-1947

Cursa, no Instituto Presbiteriano Mackenzie, o ensino secundário.

1948

Estuda Direito na Faculdade do Largo São Francisco.

1949

Hilda Hilst e amigas no Iate Clube de Santo Amaro, anos antes da reclusão da Poeta na Casa do Sol.

1957

Hilda Hilst passa alguns meses na Europa, visitando França, Grécia e Itália.

1959

Hilda Hilst visita Brasília durante a construção, acompanhada do magnata do petróleo Carlos Eduardo Paes Barreto.

1960

Hilda Hilst e Lygia Fagundes Telles compõem uma das amizades mais conhecidas do meio literário brasileiro.

1964

Hilda Hilst lê "Carta ao Greco" de Nikos Kazantzakis. O livro inspira a mudança de seu estilo de vida e teria grande impacto em sua obra.

1966

Hilda Hilst muda-se para a Casa do Sol.

1968

Hilda Hilst casa com Dante Casarini.

1970

Grande amigo, admirador e confidente de Hilda Hilst, José Luiz Mora Fuentes conhece a artista por volta de 1970 e tem sua vida entrelaçada a história da Casa do Sol e da Poeta.

1977

Hilda é homenageada com o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes na categoria melhor ficção por "Ficções".

1984

Recebe o prêmio Jabuti de poesia por "Cantares de Perda e Predileção".

1985

Hilda Hilst e Dante Casarini oficializam o divórcio. Apesar da separação, o par manteve uma relação de amizade duradoura.

1985

Rasuras, grifos e outras intervenções permeiam a biblioteca pessoal de Hilda Hilst, essas anotações na última página de "O amante de Lady Chatterley" fazem um bom trabalho em ilustrar o processo criativo sintético da Poeta.

2002

Hilda é agraciada com o prêmio Moinho Santista na categoria poesia.

2004

Hilda Hilst vem a óbito em 2004, no Hospital das Clínicas da Unicamp.

Preservando o Legado Material

Desde sua abertura ao público, a Casa do Sol já recebeu visitantes de 12 estados brasileiros. Nosso acervo digital está em construção e 30 escolas participaram do programa de visitas educativas em 2025.

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Visitas guiadas: Percursos pela biblioteca, quarto de Hilda e jardim.

Residências artísticas: Escritores e pesquisadores podem trabalhar no local.

Restauro contínuo: Preservação da estrutura original e dos objetos pessoais.

HH: Informe-se!

Vida e obra da poeta Hilda Hilst

Conheça a história de Hilda Hilst
Imagem de fundo: há um céu branco, alguns troncos de palmeira e algumas folhas aparecendo em cima. Foto em tons de sépia. Hilda Hilst em pé olhando para a câmera. Foto em tons de sépia.

Sala de Memória Casa do Sol

A Sala de Memória Casa do Sol é o núcleo documental do Instituto Hilda Hilst, responsável pela guarda, preservação e difusão do patrimônio pessoal da Poeta Hilda Hilst e da história da Casa do Sol e de seus moradores. Manuscritos, correspondências, diários, fotografias, objetos tridimensionais e a biblioteca particular — com suas marginálias — compõem um mapa íntimo do processo criativo e da vida cotidiana na Casa. Entre esses vestígios, o visitante encontra não apenas documentos, mas o espaço vivo de uma obra que segue produzindo sentido no presente.

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