“A minha casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências
E transmuta em palavras, paixão e veemência”
100+
espécies de plantas no jardim.
50+
suportes de registros audiovisuais.
600+
livros da biblioteca circulante.
600+
itens do acervo em exposição permanente.
3000+
livros da biblioteca pessoal de Hilda.
8000+
digitalizações: fotos, cartas, marginálias, manuscritos, documentos.
Nascer do Sol
Localizada em Campinas-SP, a Casa do Sol começou a ser construída em 1963. Em 1965, Hilda Hilst passou a habitá-la e ali viveu e trabalhou até 2004, fazendo do espaço não apenas uma residência, mas um recinto da sua escrita. Tombada como patrimônio cultural, a Casa do Sol é hoje sede do Instituto Hilda Hilst e permanece viva, preservada e em funcionamento. Seus ambientes originais de trabalho, a biblioteca, os jardins, os objetos de uso diário, os manuscritos e tantos outros documentos formam um interior habitado por camadas de imaginários, como se cada cômodo guardasse um sonho, cada canto mantivesse um resto de luz, cada estante ainda carregasse o peso leve dos escritores que ali dormem.
Mais do que um lugar de preservação, a Casa do Sol articula memória e uso contemporâneo pois abre-se à visitação e a atividades culturais diversas sem perder o seu batimento próprio. É uma casa que continua florescendo no encontro do que foi vivido e o que ainda pode ser polinizado.
A Casa como Obra
A Casa do Sol pode ser compreendida como uma obra em processo. Não um objeto acabado, mas um corpo, um espaço, uma página onde o tempo escreve através das mãos que abrem suas portas, pelos passos que atravessam os corredores, pelas conversas que se demoram, pelas leituras que deixam poeira de pensamento no ar. Ali, o uso cotidiano não gasta, sedimenta. Cada retorno acrescenta uma camada, cada presença deixa um traço.
Os ambientes da Casa (salas, cozinha, biblioteca, pátio interno e jardins) guardam essa lenta transformação. Há marcas materiais e memórias como quem guarda calor: na madeira, nas paredes, nas estantes, nos cantos onde a luz costuma pousar. A Casa participa; respira junto com quem entra, escuta com quem permanece, e devolve à escrita e ao convívio a sua própria arquitetura de lembranças.
Por isso, estar na Casa do Sol é reconhecer que alguns lugares não apenas abrigam a vida: eles a moldam. E que certos espaços, feitos de pequenos gestos e grandes afetos, continuam trabalhando mesmo quando tudo parece quieto.
Convivência, criação e a Casa aberta
Desde a chegada de Hilda Hilst à Casa do Sol, a convivência não foi um detalhe mas os tijolos metafísicos de uma arquitetura de afetos em permanente circulação. A Casa se fez por presenças de amigos, visitantes, artistas, pesquisadores. Gente que chegava e, por um tempo, permanecia, como um girassol que acompanha o grande astro. Partilhavam o café, o pão, o vinho, o trabalho e o intervalo, a conversa que acende e a reflexão que encanta a poesia da vida.
Essa abertura criou um fluxo contínuo de afetos: a palavra circulava, a escuta retornava, o pensamento se deslocava de um corpo para outro, e a Casa devolvia em forma de laço aquilo que recebia em forma de chegada. Assim, o encontro não era apenas hospitalidade, era método, era pulsação, um circuito de troca em que o cotidiano virava matéria de criação e a criação, por sua vez, re-memorava o cotidiano a sentir o calor da vida.
O restauro recente
Entre 2024 e 2025, a Casa do Sol atravessou o maior restauro de sua história; não como quem apaga o passado, mas como quem reafirma um compromisso: cuidar de um lugar sem retirá-lo de sua própria verdade. O projeto e a execução foram assumidos pela arquiteta Mariana Falqueiro, da Tapera Arquitetura, em consonância com as diretrizes de preservação do patrimônio tombado. O gesto central foi reconhecer que o espaço não é coisa imóvel. É experiência acumulada, é marca de uso, é tempo adubado e, por isso, preservar sua integridade arquitetônica e simbólica significou respeitar as características históricas.
O restauro devolveu à Casa condições ampliadas de conservação, segurança e acesso abrindo caminhos para que ela voltasse a ser atravessada, habitada, escutada. Com a reabertura ao público, a Casa retoma seu destino de espaço vivo, um lugar onde memória não vira vitrine e onde a programação cultural, educativa e de pesquisa pode crescer como uma Figueira engalha-se em direção ao firmamento.
Os canis
Os antigos canis da Casa do Sol, hoje alicerçados e preservados como estruturas remanescentes da amizade entre espécies companheiras, permanecem no conjunto arquitetônico e simbólico do espaço tombado. Não são ruínas; são sopros de latidos, mãos em afagos e lambeijos da continuidade de um local que abriga amores vira-latas.
Adaptados para receber atividades culturais diversas, esses ambientes ganharam infraestrutura para eventos, encontros e programações públicas. O que antes acolhia apenas companheiros de outras espécies, hoje acolhe vozes, livros, risos, debates. É ali que acontece, entre outras iniciativas, a Feira Literária Hilstianas, reafirmando a Casa do Sol como território de ocupação cultural e convivência, um território onde passado e presente tecem alianças, e onde a memória segue trabalhando em comunidade.
O Jardim
O jardim da Casa do Sol não é como uma moldura de pintura, é pulmão da Casa. Entre caminhos, sombras e aberturas de luz, ele sustenta uma calma ativa, aquela que parece quieta, mas trabalha por dentro, como as abelhas que preparam o mel. É um jardim de presença, um lugar de pausa, de conversa, de amores; lugar onde os instantes se deixam ver no crescimento dos caules, na queda das folhas, no retorno das estações.
No jardim, a Casa se expira para fora de si mesma para logo depois inspirar outros desejos. O verde conversa com a paredes, os sons atravessam os cômodos, e o ar carrega a umidade do orvalho. Há plantas que acolhem, há pássaros que cantam a cada passo que damos, há saguis que carregam seu legado em fôrma de nova vida nas costas.
E no centro desse convívio entre o devaneio da terra e o voo do sonho, a Figueira sustenta uma gravidade afetiva. Sua sombra é alento, abrigo. Seu tronco, marcado pelas eras, parece guardar histórias sem precisar contá-las como se o jardim inteiro se organizasse em torno dela, em torno dessa força ancestral que finca a Casa no chão e, ao mesmo tempo, a empurra para o alto.
Espaço vivo e espaço de memória: um museu-casa
A Casa do Sol se organiza como um museu-casa: um território em que o espaço vivo e os espaços de memórias coexistem, sem que um tire o espaço do outro. Há ambientes, objetos e documentos que se abrigam no ambiente digital e há outros que acolhem presencialmente as residências artísticas, as visitas mediadas, as atividades educativas e os eventos culturais. Na Casa, a memória não é vitrificada, ela convive.
Essa condição híbrida, própria de um bem tombado em funcionamento, pede soluções delicadas, quase artesanais. A Casa não se encaixa no modelo de um museu tradicional, tampouco se fecha como residência privada. Ela se sustenta numa fronteira ativa, em permanente negociação entre preservação, criação e uso; fiel às marcas do tempo e atenta ao presente que chega, ao passo de quem entra, às perguntas de agora, para que o que foi vivido continue, ainda, produzindo mundo.
Entre passos e palavras
Preservando o Legado Material
Desde sua abertura ao público, a Casa do Sol já recebeu visitantes de 12 estados brasileiros. Nosso acervo digital está em construção e 30 escolas participaram do programa de visitas educativas em 2025.
Agende uma Visita
Visitas guiadas: Percursos pela biblioteca, quarto de Hilda e jardim.
Residências artísticas: Escritores e pesquisadores podem trabalhar no local.
Restauro contínuo: Preservação da estrutura original e dos objetos pessoais.